segunda-feira, 26 de novembro de 2012

PALESTRA EBO LAGES (SC) - FORMANDO DISCÍPULOS NO MODELO DE JESUS

No último dia 23/11 tive o privilégio de ministrar na Escola Bíblica de Obreiros da Assembleia de Deus em Lages (SC), cuja igreja está sob a liderança do Pr. Elias Werlich. A liderança daquela brilhante igreja esteve reunida e pude ministrar sob o tema "Formando Discípulos no Modelo de Jesus".
O esboço das duas aulas ali ministradas eu transcrevo abaixo para a apreciação dos meus seguidores e meus leitores.

FORMANDO DISCÍPULOS NO MODELO DE JESUS

 Pr. Sérgio Pereira[1]

Texto Base: Mt 28.19,20; Mc 3.14

Introdução: Precisamos partir do modelo apresentado por Jesus (embora não seja o primeiro modelo apresentado na Bíblia) que é o mestre dos mestres. Jesus teve um ministério onde ensinou multidões, mas concentrou a sua mensagem nos seus discípulos, formando a base para a continuidade do seu ministério a partir do discipulado. Sendo esta a principal ordem dada aos seus discípulos antes da sua ascensão (Mt 28.18-20; Mc 3.14).

1- O QUE É UM DISCÍPULO?

A-  A palavra “discípulo” (grego “mathêtês”) aparece por 269 vezes nos Evangelhos e em Atos. Significa “pessoa treinada, ensinada, aluno, aprendiz”.

B-   Um discípulo é alguém que crê em tudo o que Cristo disse e faz tudo o Cristo manda

C-   Um discípulo é alguém que aprende, vive o que aprende e o comunica a outros.

D-  Um discípulo é alguém que aprende as palavras, os atos e o estilo de vida de seu Mestre com a finalidade de ensinar a outros.

E-   Não basta sermos seguidores, precisamos ser discípulos!

F-   Todo discípulo é um crente, mas nem todo crente é um discípulo.

1.     O crente espera pães e peixes; o discípulo é um pescador.

2.    O crente luta por crescer; o discípulo luta para reproduzir-se.

3.    O crente depende dos afagos de seu pastor; o discípulo está determinado a servir a Deus.

4.    O crente gosta de elogios; o discípulo do sacrifício vivo.

5.    O crente entrega parte de suas finanças; o discípulo entrega toda a sua vida.

6.    O crente cai facilmente na rotina; o discípulo é um revolucionário.

7.    O crente precisa ser sempre estimulado; o discípulo procura estimular os outros.

8.    O crente espera que alguém lhe diga o que fazer; o discípulo é solícito em assumir responsabilidades.

9.    O crente reclama e murmura; o discípulo obedece e nega-se a si mesmo.

10. O crente é condicionado pelas circunstâncias; o discípulo as aproveita para exercer a sua fé.

11.  O crente exige que os outros o visitem; o discípulo visita.

12. O crente busca na palavra promessas para a sua vida; o discípulo busca vida para receber as promessas da Palavra.

13. O crente pensa em si mesmo; o discípulo pensa nos outros.

14. O crente pertence a uma instituição; o discípulo é uma instituição em si mesmo.

15. O crente vale porque soma; o discípulo vale porque multiplica.

16. Os crentes foram transformados pelo mundo; os discípulos transformaram, transformam e transformarão o mundo.

17. Os crentes esperam milagres; os discípulos os fazem acontecer

18. Os crentes se destacam construindo templos; os discípulos se fazem para conquistar o mundo.

19. O crente sonha com a igreja ideal; o discípulo se entrega para fazer uma igreja real.

20.A meta do crente é ir para o Céu; a meta do discípulo é ganhar almas para povoar o Céu.

21. O crente necessita de festas para estar alegre; o discípulo vive em festa porque é alegre.

22.O crente espera um avivamento; O discípulo é parte dele.

23.O crente agoniza sem nunca morrer; o discípulo morre para dar vida a outros.

24.O crente longe de sua congregação lamenta por não estar em seu ambiente; o discípulo cria um ambiente para formar uma congregação.

25.Ao crente se promete uma almofada; ao discípulo se entrega uma cruz.

26.O crente cai nas ciladas do Diabo; o discípulo as supera e não se deixa confundir.

27.O crente responde talvez... o discípulo responde eis-me aqui.

28.O crente preocupa-se só em pregar o evangelho; o discípulo prega e faz outros discípulos.

29.O crente espera recompensa para dar; o discípulo é recompensado porque dá.

30.O crente espera que o mundo melhore; o discípulo sabe que não é deste mundo e espera o encontro com seu Senhor.

2- ENTENDENDO E ATENDENDO A CHAMADA DE JESUS PARA FAZERMOS DISCÍPULOS (Mc 1.14-20).

A-  A estratégia usada por Jesus e como ele considerava as oportunidades que tinha. A estratégia inicial de Jesus foi bem específica: "...pregando o Evangelho de Deus" (vs.14).

B-   O conteúdo da sua mensagem procurava destacar a importância que Deus dá ao homem enviando-lhe o seu reino: "o tempo esta cumprido, e é chegado o reino de Deus" (vs.15).

C-   Jesus Chama para o Arrependimento e a Fé (vs. 15). Não há caminhada cristã sem esse primeiro passo da parte do homem. Não há nem mesmo cristianismo.

D-  Jesus Chama para uma Vida de Serviço (vs.17). A chamada ao discipulado tem dois lados. O primeiro é a chamada para seguir a Jesus, ser um discípulo fiel e leal ao Mestre. O outro lado é para cumprirmos a missão que ele tem designado para cada um de nós. Jesus chama o homem primeiro para ser seu seguidor, fazer sua vontade e viver seus valores.

E-   Jesus Chama, não só pela Capacidade, mas também pela Disponibilidade (vs. 18). A resposta à convocação de Jesus foi imediata. Os homens simples do povo são chamados por causa desta disponibilidade para o serviço. Disponibilidade não é ociosidade; é, antes um estado de prontidão, de disposição para o serviço. Os primeiros não olharam para as redes e ficaram com pena de deixar a sua profissão e seguir a Jesus, para se tornarem seus discípulos.

3- COMO JESUS FAZIA DISCÍPULOS? UMA ANÁLISE DO SISTEMA DE DISCIPULADO DE JESUS

A-  O método de Jesus baseava-se muito mais no relacionamento do que na absorção de conhecimento acadêmico ou intelectual

a.    Mc 3.14 – “estar com Jesus” seria a marca do treinamento desses homens, veja At 4.13

b.    Deste momento em diante ficava claro que o ensino de Jesus seria o da convivência pessoal

B-   A proposta de Jesus era para além da vivencia relacional (Mc 3.8)

C-   Jesus fazia-os descobrir as propostas do Reino de Deus através das parábolas por Ele ensinadas (Mt 13.1-52)

D-  Jesus levava-os a conhecê-lo numa intimidade jamais demonstrada diante das multidões

a.    Sua transfiguração (Mt 17.1-8)

b.    Seu sono durante uma tempestade (Mc 4.38)

c.    Seu estado de fadiga e fome junto ao poço de Jacó (Jo 4.6-8)

E-   Jesus os levava a uma prática ministerial

a.    Eles confrontaram-se com demônios (Mt 17.14-21)

b.    Foram confrontados com a oração (Mt 26.36-46)

c.    A confrontação para a restauração de Pedro (Jo 21.15-23)

F-   Jesus valoriza o individuo pela alma não pelo bolso. Para Ele não há “peixe grande ou peixe pequeno”

a.    Zaqueu (Lc 19.1-9)

b.    A mulher samaritana (Jo 4.7-29)

c.    Nicodemos (Jo 3.1-21)

G-  As expectativas de Jesus quanto ao ministério diferenciavam-no de seus discípulos  (Mc 10.32-45)

a.    Jesus esta caminhando cheio de coragem, mas seus discípulos estão atemorizados (vs. 32)

b.    Jesus caminha em direção à cruz, seus discípulos ambicionam a glória (vs. 33-38)

                                        1.    Para Jesus o caminho da glória passa pela cruz, s discípulos queriam a glória sem a cruz.

c.    Jesus exerce sua autoridade para servir, os discípulos ambicionam poder para dominar (vs. 37-41)

                                        1.    Houve uma crise entre eles por causa de poder (vs. 41)

                                        2.    Uma vez mais se discutiu sobre quem era o maior (Mc 9.33-35)

4- ANÁLISE DE ALGUNS EPISÓDIOS SOBRE O MODELO DE DISCIPULADO DE JESUS

A-  Lições da pesca maravilhosa (Lc 5.1-11).  Neste acontecimento da grande captura de peixes, Jesus demonstrou os métodos para os ganhadores de almas.

a.    Um pescador de homens deve ir onde as pessoas estão (vs. 4a).

b.    Um pescador de homens deve usar o equipamento correto (vs. 4b).

c.    Um pescador de homens deve obedecer a Cristo e a sua Palavra (vs.5b).

d.    Um pescador de homens deve reconhecer suas próprias inadequações (vs.8).

e.    Um pescador de homens deve dar o seu testemunho em primeiro lugar (vs.11).

B-   A Parábola da Ovelha Perdida e Suas Lições (Lc 15.4-7). O tratamento do pastor da parábola é o que temos por referencial:

a.    Ele valoriza a ovelha perdida. O pastor poderia ter se contentado com as noventa e nove que estavam seguras e desistido da ovelha peralta que rebeldemente desgarrou-se. Mas o pastor não desistiu de buscar a ovelha, ainda que fosse uma ovelha rebelde.

b.    Ele procura pela ovelha perdida. O pastor saiu em busca da ovelha perdida.

c.    Ele desce aos mais profundos abismos para buscar a ovelha perdida. O pastor correu riscos para encontrar a ovelha perdida.

d.    Ele toma nos braços e leva para o aprisco a ovelha perdida. Ele não sente nojo da ovelha que caiu no abismo, mas desce os despenhadeiros mais perigosos para arrancar das entranhas da morte a ovelha que se perdeu e encontra-a, toma-a amorosamente nos braços e a leva para o aprisco.

e.    Ele corre riscos pela ovelha, se identifica com ela. Ao coloca-la sobre os ombros, toda a sujeira e sangue que estão na ovelha, vem para as vestes do pastor, mas ele não está preocupado com sua reputação.

f.    Ele celebra com alegria a volta da ovelha desgarrada. A Bíblia diz que há festa no céu por um pecador que se arrepende. Os anjos exultam de alegria ao verem uma ovelha sendo resgatada das garras da morte.

BIBLIOGRAFIA
ARANGUREN, Luis. Discipulado Transformador. LifeWay. São Paulo, 2002
BONHOEFFER, Dietrich. Apostila Discipulado.
BUENO, Luiz Augusto Corrêa. Apostila: O Discipulado na Missão da Igreja.
KORNFIELD, David. Série Grupos de Discipulado, Vol. 1. Editora Sepal. São Paulo, 1994.
KUIPER, R. B. El Cuerpo Glorioso de Cristo. Grand Rpids, T.E.L.L. 1985.
LOPES, Hernandes Dias. Artigo: Em Busca da Centésima Ovelha, disponível in: www.ipbvit.org.br/boletim/1413.pdf. Acesso em 19/04/2011.
MOORE, Waylon. Multiplicación de Discípulos. Casa Bautista de Publiciones. El Paso, 1981.
PEREIRA, José Maurício. Artigo: O Discipulado Determinado Por Jesus. Publicado no Jornal Aleluia 347, de novembro de 2009.
RICHARDS, Lawrence O. Teologia do Ministério Pessoal. Edições Vida Nova. São Paulo, 1980.
SITTEMA, John. Coração de Pastor. Editora Cultura Cristã. São Paulo, 2004.


[1] Pastor Sérgio Pereira. Membro da CGADB (34536) e da CIADESCP (1246). Bacharel em Teologia, Especializado em Teologia Prática, professor, conferencista e pregador. Autor de algumas matérias dos cursos em teologia oferecidos pela FAEST – Mafra (SC). Pastor Setorial do Setor 5 –Tapera em Florianópolis (SC).
E-mail: prsergiopereira@gmail.com / Blog: http://prsergiopereira.blogspot.com / TWITTER: @pr_srgio
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

AOS SANTOS EM CRISTO JESUS

Aos Santos em Cristo Jesus
 
Por Jaime Marcelino
"Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos que vivem em Filipos, graça e paz a vós outros, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo" (Fp 1: 1, 2)
Dirijo-me a todos os evangélicos leitores deste site, desejoso de que a saudação contida no texto acima encontre guarida nos seus corações. No entanto, é necessário que reflitamos no referido texto, crendo que nosso Senhor Jesus Cristo nos dará compreensão e a experiência da graça e da paz!
Ora, Paulo, o real autor da carta aos filipenses, no momento que a escreveu estava preso e acorrentado a soldados especiais, que eram os da guarda pretoriana! Mas, apesar disso, vemo-lo cheio de contentamento, a ponto de desejar aos seus irmãos, que estavam livres ou fora da cadeia, o que ele e Timóteo experimentavam abundantemente - "graça e paz"! Ora, qual é o segredo de tal experiência?
1. Paulo e Timóteo eram conscientes do privilégio que é ser escravo de Cristo Jesus. Vejo isso pelo fato de eles terem se apresentado como "servos de Cristo Jesus". Ora, isso é da máxima importância, uma vez que eles dois se rendiam, não a homem algum, mas à vontade dAquele que, dos céus, domina sobre tudo (cf. Fp 2). Por essa razão, Paulo não considerava a sua prisão como proveniente de César, o imperador, pois disse: "as minhas cadeias em Cristo" (Fp 1:). Também, Paulo pode dizer que seu viver era Cristo (Fp 1: 21); sua fortaleza era Cristo (Fp 4: 13); sua alegria estava em Cristo (Fp 4: 10); e, seu morrer era lucro, por ser Cristo seu tudo! Oh! Que grande privilégio é servir a Cristo Jesus! E nisso está a abundante graça!
2. Como "servos de Cristo Jesus", quer presos quer soltos, Paulo e Timóteo alegremente serviam aos que seu Senhor conquistou para Si, a saber, "todos os santos em Cristo Jesus". Muito se poderia escrever sobre isso, mas uma das maiores provas da amorosa disposição de Paulo para servir a seus irmãos pode ser vista quando ele se encontrou num santo dilema. Ei-lo: Depois de ter afirmado: "Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro", e mais: "estar com Cristo [...] é incomparavelmente melhor", Paulo declarou cheio de amor: "Mas, por vossa causa. É mais necessário permanecer na carne. E, convencido disto, estou certo que ficarei e permanecerei com todos vós, para o vosso progresso e gozo da fé" (Fp 1: 21-26). Em outras palavras, mesmo esmagado pelos dois desejos, preferiu servir aos irmãos, deixando de querer o que seria incomparavelmente melhor, para ele. Afinal, seu amor por Cristo o levava a servir "os santos em Cristo Jesus", para que, disse ele: "aumente, quanto a mim, o motivo de vos gloriardes em Cristo Jesus, pela minha presença, de novo, convosco" (v. 26). E quanto a Timóteo, o que pode ser dito? Basta que tomemos as doces palavras de Paulo acerca de Timóteo, e isso será o bastante para demonstrar quanto ele servia a Cristo servindo os santos em Cristo Jesus: "Porque a ninguém tenho de igual sentimento que, sinceramente, cuide dos vossos interesses; pois todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus. E conheceis o seu caráter provado, pois serviu ao evangelho, junto comigo, como filho ao pai. Este, com efeito, é quem espero enviar, tão logo tenha eu visto a minha situação" (Fp 2: 20-23).
Oh! Quanta "graça" havia nesses dois servos de Cristo Jesus! E quanto eles, na medida em que serviam os santos em Cristo Jesus, gozavam "paz"!
3. Paulo e Timóteo criam ser também "santos em Cristo Jesus". Antes de serem servos de Cristo Jesus, eles foram "chamados para [ser] santos" no sentido de "separados para dedicação ou devoção a Deus"; mas, sobretudo, foram feitos santos no maravilhoso aspecto da sua nova natureza. Daí, o uso que Paulo fez da expressão "em Cristo Jesus", para definir e qualificar o vocábulo "santos". Neles, pois, habitava o Espírito Santo, o regenerador e santificador do povo de Deus. O Espírito que fora enviado em nome do Pai e do Filho, a fim de glorificar o Filho. Por isso, Paulo e Timóteo criam que, sendo Jesus "santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus" (Hb 7: 26), e que tendo "oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados [...] aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados" (Hb 10: 12, 14). Por esta razão, Paulo e Timóteo, sendo "santos em Cristo Jesus", procuravam "ser achados em Cristo Jesus" para mais e mais "alcançar" o alvo para o qual foram conquistados por Cristo Jesus, a saber, a perfeição em Cristo Jesus. Em outras palavras, eles se esforçavam para experimentar o que disse o apóstolo Pedro: "antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Pe3: 18).
Espero que tenham percebido como "exagerei" no uso da expressão "Cristo Jesus". Por que o fiz? Porque devemos estar certos de que nossa maior necessidade é ter a Cristo Jesus como nosso tudo! E se quisermos ver esta atitude em Paulo, basta que observemos que ele usou o Nome do Senhor Jesus, nos dois versículos do nosso texto, três vezes!
Assim, caro leitor, se você já crê no glorioso evangelho de Deus, com respeito ao Seu Filho, Jesus Cristo, lembre duas coisas: Primeiro, a graça do Senhor Jesus lhe foi abundante, pelo que você nasceu de novo, tendo sido feito um dos "santos em Cristo Jesus". Segundo, lembre que é vital que a graça do Senhor Jesus continue operando para que os "santos em Cristo Jesus" vivam a vida cristã de modo a glorificar a Deus em Cristo Jesus. E é somente pela operação da graça de Deus em Cristo Jesus, que é Seu favor beneficiando os santos em Cristo Jesus, que eles servirão a Cristo Jesus, servirão aos demais no Senhor Jesus. E assim, "a Paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus"!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A “Síndrome do Carro Novo”

Por falta de tempo devido ao acumulo do trabalho pastoral, tenho tido dificuldade para escrever e atualizar esse blog. Por isso hoje quero postar um artigo de autoria de outro pastor. Sempre lembrando que posto aquilo que concordo e que gostaria de ter escrito. Leia e comente.


A “Síndrome do Carro Novo”


Confesso que ri muito quando folheava uma revista destinada à Escola Dominical, editada por uma séria e conceituada editora evangélica. Seu autor, Pastor Elinaldo Renovato, muito sabiamente se referia aos novos costumes eclesiásticos surgidos principalmente em favor da Teologia da Prosperidade e da confissão positiva e dei de cara com esse nome de síndrome. Como todos sabem a síndrome não é doença, mas, um estado de funcionamento alterado onde várias alterações físicas e psicológicas surgem em decorrência dela. Seu aparecimento se nota em alterações para mais ou para menos, dependendo do caso. Certo é que, ela nunca deixa o corpo sem alguma seqüela e algumas, infelizmente, são irreversíveis.
O autor da lição compara os novos costumes a uma síndrome chamada de “do carro novo” lembrando o episódio de Uzá e da Arca, em II Samuel 6.1-3. Os sacerdotes sabiam que a Arca deveria ser transportada em seus ombros, segura pelas varas, mas, a vontade de inovar e a falta de observação às prescrições dadas por Deus no tempo da peregrinação no deserto fizeram com que alguém que não era sacerdote pusesse as suas mãos nela, resultando assim em sua morte. Uma coisa trágica que poderia ser evitada se as prescrições divinas fossem observadas.
Quando paro para pensar nos “carros novos” que os cristãos têm construído para carregar as coisas sagradas que Deus tem ordenado à sua igreja, fico deveras preocupado. A graça de Deus, uma coisa tão simples de ser entendida, tem sido transformada em algo esotérico, somente conferida aos grandes iniciados. Rituais restauracionistas são incluídos nas liturgias das igrejas. Tocam shofar (aquele berrante de chifre de carneiro, só presta para fazer barulho), fazem festas judaicas, vivem falando “shalom” (existe uma palavra em português que transmite toda a plenitude dessa, que é em hebraico: paz. Simples, não é?). Vestem os thalit (xales de oração) As determinações e decretos tomam o lugar da vontade divina, o que vale é a confissão positiva. Os rituais passam a ter valor sacramental. Correntes de “tantos dias” para quebra de maldições hereditárias (crente tem isso?). As bandeiras de Israel estão nos altares, nos carros e o judeu é tido como um filho predileto de Deus, apesar de sua incredulidade e de estarem planejando a reconstrução do templo de Jerusalém. A graça é liberada aos dizimistas fiéis e os demais estão “roubando a Deus” e sendo amaldiçoados. Pastores se intitulam apóstolos e ficam em lideranças máximas de comunidades, contrariando as Escrituras Sagradas e o chamado Didaché, documento do século II que prevê que o apóstolo que aparecer nas igrejas e nelas permanecer mais de dois dias, deve ser reputado como falso.
A graça de Deus é algo que nos livra das maldições do pecado. Paulo fala o tempo todo em suas cartas sobre ela. Nada de misterioso ou ritualístico. Dogmático sim: a graça de Deus anula o pecado de uma vez por todas e fim de papo! Igreja que constrói carro novo para carregar algo que deve ser levado nos ombros está em franca rota de colisão com a Palavra. Os ministros que assim permitem causarão a morte de muitos Uzás. Quantos ainda terão de morrer até que a Arca seja devolvida aos ombros dos sacerdotes? A Palavra da salvação é do púlpito, não de rituais proscritos e louvores inconsistentes. Se a Bíblia deixar de ser lida, pregada em sua simplicidade e enfeitada com achismos e exterioridades perigaremos ter um Evangelho maculado e de cêpa humana. Não sou eu, mas, Paulo é quem diz:"Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema".
Algumas pessoas me perguntam:”Pastor, o senhor não é um pouco radical com seus pontos de vista em relação às músicas, costumes e práticas das igrejas? Eu respondo que não. Sou bíblico e não admito que se inventem coisas para “dar uma ajudazinha” à Palavra Revelada que se basta a si própria. Não abro mão disto.
Que a Igreja assuma o seu papel de carregar nos ombros o Concerto de Deus com ela e que os “carros novos”, por mais bonitos que sejam, sejam banidos em nome de Jesus para que o verdadeiro Evangelho da Graça encontre o seu lugar devido.

Autor: Pastor Gilmar de Araújo Duarte, Ministro de Educação Cristã da Primeira Igreja Batista em Brás de Pina, Rio de Janeiro, RJ.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

FRUSTRAÇÃO PASTORAL

Tenho o costume de postar aqui artigos na maioria de minha autoria. Quando isso não acontece, posto artigos cujo teor são mensagens que após serem por mim lidas, geram em minha mente o seguinte pensamento: "eu gostaria de ter escrito isso". Por essa razão publico neste modesto blog o presente artigo de autoria do Iminente Pastor Isaltino Gomes Coelho Filho.


FRUSTRAÇÃO PASTORAL

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da Igreja Batista Central de Macapá, 1 de julho de 2012

Num retiro de pastores, um colega me indagou qual a minha frustração pastoral após quatro décadas como pastor. Respondi que era ter que preparar mamadeiras para crianças que nunca cresceram espiritualmente. A maior parte do tempo e das emoções de um pastor (e da igreja) é gasta cuidando de gente que não amadurece.
Um colega disse que em sua igreja ele precisa telefonar para todos os membros ou visitá-los durante a semana, senão eles não vão à igreja, por que “não foram tratados como merecem”. Em uma igreja, um crente se escondia atrás de uma coluna e no dia seguinte telefonava para saber se o pastor sentira sua falta. Igreja é hospital, recebe doentes, mas é lugar de cura. Há doentes que se recusam à cura. Querem afagos. O Espírito Santo não produz doença, e sim saúde. Mas as igrejas estão cheias de doentes emocionais. Um diácono, líder de visitação numa igreja, falou-me de um irmão que mudara de denominação porque na nova tratavam-no como se fosse a primeira vez que lá chegara. Este não entendeu o evangelho!
Há igrejas que falam muito de cura. Nesta semana ouvi pela tevê um pregador repreender (?) câncer, reumatismo, tumores e todas as doenças. E as doenças espirituais? Nunca vi alguém repreender a infantilidade, melindres e criancice emocional. Quando eu era criança, havia a figura do garoto que era “pereba”, como a gente dizia (ruim de bola), mas era o dono da bola. Até pênalti ele batia. E perdia! Se não, levava a bola para casa. Em criança, vá lá. Em adulto pega mal!
Parte do tempo para treinar pessoas para o serviço cristão se perde com bebês espirituais. Muito de nossas emoções se gasta afagando criancinhas em Cristo. Poderíamos investi-las na busca de pessoas para Cristo.
O alvo de Deus para nós é chegarmos “ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo; para que não sejamos mais inconstantes como crianças…” (Ef 4.13-14). Devemos ser crianças na malícia, mas adultos no entendimento (1Co 14.20). Crianças espirituais impedem a marcha da igreja de Jesus. São clientes e não soldados engajados na luta!
Graças a Deus que a igreja não se compõe só de deficientes espirituais. Há adultos espirituais, confiáveis, “pau pra toda a obra”. Em Monte Dourado, o irmão Sales, meu hospedeiro para os cursos de treinamento da COBAP, falava-me de alguns irmãos da igreja e dizia: ”São gente com que se pode contar a qualquer hora. Se a igreja precisar deles às 3 da manhã eles estarão lá”. Cá na Central também os há!
Frustram-me crianças espirituais que demandam cuidados para darem um mínimo de resposta à igreja. Mas realizo-me com tantos adultos, “pau pra toda a obra”. Deus tenha misericórdia das crianças. Que elas tenham juízo e cresçam. Deus seja louvado pelos maduros. Que eles nunca desanimem!

FONTE: http://www.isaltino.com.br/




domingo, 10 de junho de 2012

SER PASTOR!!

Hoje é comemorado o dia do pastor. Sendo pastor sinto-me honrado pelo Sumo Pastor em poder servir a sua Igreja edificando-a e orientando-a em sua caminhada a Canaã Celestial. Visando homenagear a todos os pastores, transcrevo abaixo mensagem de autoria do Pr. Wagner A. Araújo que fala sobre o que é ser pastor. Leia e comente



SER PASTOR (Wagner A. Araújo)

Qual o sentido dessa palavra? Ser pastor! Uma afirmação tão pequena, mas repleta de tanto significado!
Ser pastor é muito mais que ser um pregador. Está além de ser um administrador de igreja. Muito além de professor ou conferencista. Ser pastor é algo da alma, não apenas do intelecto.
Ser pastor é sentir paixão pelas almas. É desejar a salvação de alguém de forma tão intensa, que nos leve à atitude solidária de repartir as boas-novas com ele. É chorar pelos que se mantém rebeldes. É pensar no marido desta irmã, no filho daquela outra, na esposa do obreiro, nos vizinhos da igreja, nos garotos da rua. Ser pastor é tudo fazer para conseguir ganhar alguns para Cristo.
Ser pastor é festejar a festa da igreja. É alegrar-se com a alegria daquele que conquista um novo emprego, daquele que gradua-se na faculdade, daquele que recebe a escritura da casa própria ou do outro que recebeu alta no hospital. Ser pastor é ter o brilho de alegria ao ver a felicidade de um casal apaixonado, ao ver o sucesso na vida cristã de um jovem consagrado, é festejar a conversão de um familiar de alguém da igreja por quem há tempos se vinha orando. Ser pastor é desejar o bem sem cobiçar para si absolutamente nada, a não ser a felicidade de participar dessa hora feliz.
Mas ser pastor também é chorar. Chorar pela ingratidão dos homens. Chorar porque muitas vezes aqueles a quem tanto se ajudou são os primeiros a perseguirem-nos, a esfaquearem-nos pelas costas, a criticarem-nos, a levantarem falso testemunho contra a igreja e contra nós. É chorar com os que choram, unindo-nos ao enlutado que perdeu um ente querido, é dar o ombro para o entristecido pela perda de um amor, é ser a companhia do solitário, é ouvir a mesma história uma porção de vezes por parte do carente. Chorar com a família necessitada, com o pai de um drogado, com a mãe da prostituta, com a família do traficante, com o irmão desprezado.
Ser pastor é não ter outro interesse senão o pregar a Cristo. É não se envolver nos negócios deste mundo, buscando riquezas, fama e posição. É saber dizer não quando o coração disser sim. É não ir à casa dos ricos em detrimento dos pobres. É não dar atenção demasiada para uns, esquecendo-se dos outros. É não ficar do lado dos jovens, em detrimento dos adultos e vice-versa. Ser pastor é não envolver-se em demasia com as pessoas, ao ponto de se perder a linha divisória do amor e do respeito, do carinho e da disciplina. Ser pastor é não aceitar subornos nem tampouco desprezar os não expressivos.
Ser pastor é ser pai. É disciplinar com carinho e amor, conquanto com a firmeza da vara, da correção e, não raras vezes, da exclusão de pessoas queridas. É obedecer a Bíblia, não aos homens. É seguir a Deus, não ao coração. Ser pastor é ser justo. Ser pastor é saber dizer não, quando a emoção manda dizer sim. Ser pastor é ter a consciência de não ser sempre popular, principalmente quando tiver que tomar decisões pesadas e difíceis, e saber também ser humilde quando a bênção de Deus o enaltecer diante do rebanho e diante do mundo. Os erros são nossos, mas a glória é de Deus.
Ser pastor é levantar-se quando todos estão dormindo e dormir quando todos estão acordados, socorrendo ao necessitado no horário da necessidade. Ser pastor é não medir esforços pela paz. É pacificar pais e filhos, maridos e esposas, sogros e genros, irmãos e irmãs. Ser pastor é sofrer o dano, o dolo, a injustiça, confiando nAquele que é o galardoador dos que o buscam. Ser pastor é dar a camisa quando lhe pedem a blusa, andar duas milhas quando o obrigam a uma, dar a outra face quando esbofeteado.
Ser pastor é estar pronto para a solidão. É manter-se no Santo dos Santos de joelhos prostrados, obtendo a solução para os problemas insolúveis. Ser pastor é não fazer da esposa um saco de pancadas, onde descontar sua fragilidade e cansaço. Ser pastor é ser sacerdote, mantendo sigilo no coração, mantendo em segredo o que precisa continuar sendo segredo, e repartindo com as pessoas certas aquilo que é "repartível". Ser pastor é muitas vezes não ser convidado para uma festa, não ser informado de uma notícia ou ser deixado de fora de um evento, e ainda assim manter a postura, a educação, o polimento e a compaixão. Ser pastor é ser profeta, tornar o seu púlpito um "assim diz o Senhor", uma tocha flamejante, um facho de luz, uma espada de dois gumes, afiada e afogueada, proclamando aos quatro ventos a salvação e a santificação do povo de Deus.
Ser pastor é ser marido e ser pai. É fazer de seu ministério motivo de louvor dentro e fora de casa. É não causar à esposa a sensação de que a igreja é uma amante, uma concorrente, que lhe tira todo o tempo de vida conjugal. Ser pastor é amar aos seus filhos da mesma forma que ensina aos pais cristãos amarem aos seus. É olhar para os olhos de seus filhos e ver o brilho de seus próprios olhos. É preocupar-se menos com o que os outros vão pensar e mais no que os filhos vão aprender, sentir e receber. É ver cada filho crescer, dando a cada um a atenção e o amor necessários. É orgulhar-se de ser pai, alegrar-se por ser esposo, servir de modelo para o povo. E, quando solteiro, tornar a sua castidade e dignidade modelo dos fiéis, enaltecendo ao Senhor, razão de sua vida.
Ser pastor é pedir perdão. Se os pastores fossem super-homens, Deus daria a tarefa pastoral aos anjos, mas preferiu fazer de pecadores convertidos os líderes de rebanho, pois, sendo humanos, poderiam mostrar aos demais que é possível ser uma bênção. Mas, quando pecarem, saberem pedir perdão. A humildade é uma chave que abre todas as portas, até as portas emperradas dos corações decepcionados. A humildade pode levar o pastor à exoneração, como prova de nobresa e integridade, como pode fazê-lo retomar seus trabalhos com maior pujança e vigor. Há pecados que põem fim a um ministério e ser pastor é saber quando o tempo acabou. Recomeçar é possível, mas nem sempre. Ser pastor é saber discernir entre ficar ou sair, entre continuar pastor e recolher-se respeitosamente.
Ser pastor é crer quando todos descrêem. Saber esperar com confiança, saber transmitir otimismo e força de vontade. É fazer de seu púlpito um farol gigantesco, sob cuja luz o povo caminha sempre em frente, para cima e em direção a Deus. Ser pastor é ver o lado bom da questão, é vislumbrar uma saída quando todos imaginarem que é o fim do túnel. Ser pastor é contagiar, e não contaminar. Ser pastor é inovar, é renovar, é oferecer-se como sacrifício em prol da vontade de Deus. Ser pastor é fazer o povo caminhar mais feliz, mais contente, é fazer a comunidade acreditar que o impossível é possível, é fazer o triste ser feliz, o cansado tornar-se revigorado, o desesperado ficar confiante e o perdido salvar-se. As guerras não são ganhas com armas, mas com palavras, e as do pastor são as palavras de Deus, portanto, invencíveis.
Ser pastor é saber envelhecer com dignidade, sem perder a jovialidade. É ser amigo dos jovens e companheiro dos adultos. Ser pastor é saber contar cada dia do ministério como uma pérola na coroa de sua história. Ser pastor é ser companhia desejada, querida, esperada. É saber calar-se quando o silêncio for a frase mais contundente, e falar quando todos estiverem quietos. Ser pastor é saber viver. Ser pastor é saber morrer.
E quando morrer, deixar em sua lápide dizeres indeléveis, que expressem na mente de suas ovelhas o que Paulo quis dizer, quando estava para partir: "combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé". Ser pastor é falar mesmo depois de morto, como o justo Abel e o seu sangue, através de sua história, de seu exemplo, de seus escritos, de suas gravações. Ser pastor é deixar uma picada na floresta, para que outros venham habitar nas planícies conquistadas para o Reino do Senhor. Ser pastor é fazer com que os filhos e os filhos dos filhos tenham um legado, talvez não de propriedades, dinheiro ou poder político, mas o legado do grande patriarca da família, daquele que viveu e ensinou o que é ser um pastor.

Eu sou pastor.

Obrigado, Senhor!

Pr. Wagner Antonio de Araújo / Igreja Batista Boas Novas de Osasco, SP

 

 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Jesus Odeia Religião? Mesmo?

Jesus Odeia Religião? Mesmo?

Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes

Eu acho que frases de efeito como "Jesus é maior do que religião", ou ainda "Jesus odeia religião", ou mesmo "Eu sigo a Jesus; cristianismo é religião" não ajudam muito. Elas precisam de algumas definições para fazer sentido.
(1) A religião que Jesus "odiou" foi o judaísmo legalista e farisaico de sua época, que era uma DISTORÇÃO da religião que Deus havia revelado a Israel e pela qual os profetas tanto lutaram. Logo, não se pode dizer que Jesus é contra a religião em si, mas contra aquelas que são legalistas, meritórias e contrárias à palavra de Deus;

(2) Jesus participou daquilo que era certo na religião de seus dias: foi circuncidado, aceitou ser batizado por João, foi ao templo nas festas religiosas, orou, deu esmolas, mandou gente que ele curou mostrar-se ao sacerdote;

(3) Seus seguidores, os apóstolos, logo se organizaram em comunidades, elegeram líderes, elaboraram declarações de fé, escreveram livros que virariam Escritura, recolhiam ofertas, tinham locais (casas) para se reunir - ou seja, tudo que uma religião tem. Logo, não devíamos dizer que o cristianismo não é uma religião;

 
(4) É verdade que o Cristianismo através dos séculos se corrompeu em muitos lugares e épocas. Mas, todas as vezes em que isto ocorreu, deixou de ser a religião verdadeira para ser uma religião falsa. Portanto o correto é dizer que Jesus odeia o legalismo religioso, inclusive dentro do cristianismo. Mas é injusto e falso colocar Jesus contra toda e qualquer forma de cristianismo

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Matéria no Mensageiro da Paz Edição de Maio 2012

Mais uma vez sou brindado pela CPAD pela oportunidade de ver publicado mais um artigo de minha autoria no Jornal Mensageiro da Paz.

Na edição nº 1524 de Maio de 2012, na página 16 você lerá a mensagem intitulada "Quando os Valores são invertidos".

Meus agradecimentos ao editor-chefe Pr. Silas Daniel e ao redator Edilberto Silva pela apreciação e deferencia!

Soli deo gloria!

sábado, 7 de abril de 2012

A Páscoa Judaica e a Páscoa Cristã



A Páscoa Judaica e a Páscoa Cristã




Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer



Pessach (do hebraico חספ, ou seja, passagem) é o nome do sacríficio executado em 14 de Nissan segundo o calendário judeu e que precede a Festa dos Pães Ázimos . O nome Pessach é associado a esta festa, que celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme se encontra narrado no livro do Êxodo. Corresponde ao que, no Ocidente, chamamos Páscoa judaica. O Cristianismo, que nasce no seio da sinagoga judaica, chamou de Páscoa sua maior festa: a que celebra a ressurreição de Jesus Cristo, reconhecido e confessado como Messias e Filho de Deus, do poder da morte para a vida que não termina. A Páscoa judaica e a Páscoa cristã têm muitas diferenças, mas também muitos pontos em comum.
De acordo com a tradição judaica, a primeira celebração de Pessach ocorreu há 3500 anos, quando de acôrdo com a Torah – a Lei de Deus – o Senhor enviou dez pragas sobre o povo do Egito. Antes da décima praga, - que seria a morte dos primogênitos das famílias egípcias - Moisés foi instruído pelo mesmo Deus a pedir que cada família hebréia sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais (mezuzót) das portas, para que seus primogênitos não fossem exterminados.
Chegada a noite, os hebreus comeram a carne de um cordeiro sem mancha, acompanhada de pães ázimos e ervas amargas. Depois, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogênitos egípcios, desde os primogênitos dos animais até mesmo os primogênitos da casa do Faraó. Então este, temendo ainda mais a Ira Divina, aceitou libertar o povo de Israel para adoração no deserto, o que levou o povo ao Êxodo que o levou à liberdade e a sua constituição como povo.Como memória desta libertação, e do castigo de Deus sobre o Faraó foi instituído para todas as gerações de judeus a obrigação de celebrar a festa de Pessach para rememorar o que Deus fez em seu favor.
Pessach portanto significa a passagem, porém a passagem do Senhor através de seu mensageiro, o anjo . Posteriormente foi agregado a esta concepção a passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho que confirmou sua libertação. Até hoje os judeus celebram esta festa que evoca os preciosos símbolos que a história da libertação do Egito traz à memória e à história: liberdade, justiça, reinício do ciclo da vida.
A festa cristã da Páscoa tem origem na festa judaica, mas possui um significado diferente. Enquanto para o Judaísmo, Pessach representa a libertação do povo de Israel do Egito, no Cristianismo a Páscoa é a festa maior que celebra a morte e ressurreição de Jesus Cristo, assimilando também diversos elementos alegóricos de morte e renascimento representados pela transição do inverno-primavera que ocorre neste período no hemisfério norte; ou pelo ovo símbolo da vida, ou pelo coelho, símbolo da fecundidade e abundancia de vida.
Nada haveria acontecido e nada haveria a celebrar se não fosse essa passagem do Senhor, ao mesmo tempo assustadora e alumbradora na vida do povo de Israel e na carne torturada e assassinada de Jesus de Nazaré. Foi por esta apertada e apressada passagem que o povo eleito conheceu a liberdade e também conheceu mais ao seu Deus. No duro aprendizado do deserto, este mesmo povo aprenderá que não há que ter saudades da falsa abundancia da escravidão, com panelas cheias de cebola e carne. Pelo contrário, há que alimentar-se do escasso maná, dado por Deus segundo a necessidade de cada dia enquanto se caminha rumo à verdadeira liberdade e plenitude.
Os primeiros cristãos viram no mistério pascal de Jesus Cristo novo Exodo e nova Páscoa. Na pessoa do Nazareno inocente e condenado pelos poderes deste mundo enxergaram a salvação, a passagem do Senhor que enfim manifestava o seu Dia. Era cumprido o Tempo e a salvação enfim se fazia presente sobre a história. O Senhor voltaria novamente em plena glória e enquanto tal havia que esperá-lo vivendo o amor até as últimas consequencias.
No entanto, com o passar do tempo, a comunidade cristã foi compreendendo que essa revelação ainda tinha muito a ensinar. Com a Ressurreição do Crucificado, Deus seu Pai dissera sua última palavra sobre aquela vida feita só de amor e humilde serviço. A morte não tinha mais poder sobre ele. E a partir dele, não teria mais poder sobre nenhum homem e mulher vindos a este mundo.
Porém, a Paixão ainda não terminara no seio da história. Enquanto a criação inteira se contraía com a dolorosa expectativa da mulher que vai dar à luz e em meio a suas dores pre-sente a esplendorosa alegria do alumbramento do parto, continuava a haver sofrimento no mundo. Lutas de poder no interior da comunidade, perseguições de toda sorte por parte das mais diversas instâncias. A luz trazida pela passagem de Jesus da morte para a vida pelo poder de Deus brilhava através e apesar das trevas que ainda continuavam com paciência termital seu trabalho predatório sobre a vida e a humanidade.
Por isso o grande Paulo de Tarso ensinará às comunidades por ele fundadas e amadas com paternas entranhas que é preciso vigiar. O Ressuscitado ainda está crucificado toda vez que a vida é machucada e a injustiça parece ganhar terreno. A vitória já está alcançada mas ainda não se manifestou em plenitude. E enquanto isso é preciso ter os rins cingidos, as sandálias aos pés e o cajado à mão. E deixar-se possuir pela urgência e pela pressa.
Urgência de fazer avançar o Reino de Deus através do conflito e da dor. Pressa de fazer acontecer o amor sobretudo ali onde o desamor parece haver conseguido seu maior avanço: na pobreza, na injustiça, na violência, na exclusão. Mas em meio à pressa e à urgência, coração alegre e esperançado. Pois o Senhor passou e passa. Passou em meio ao povo cativo levando-o do cativeiro à libertação. Passou no corpo e na vida de Jesus de Nazaré suscitando-o da morte à vida. Passa e passará em nossas vidas levando-nos da noite escura da injustiça, da violência e do vazio à alegria luminosa que vem do amor feito serviço e lava pés aos irmãos oprimidos no rosto de quem brilha o rosto do Ressuscitado.
Por isso a celebração da Páscoa, entre judeus ou cristãos, é a festa da vida e da alegria ,mas também da urgência. Urgência de viver no respeito e não apenas na tolerância às diferenças que marcam as diversas identidades. Indignação e prática amorosa diante das enormes desigualdades que aprisionam e desumanizam sociedades inteiras.
Urgidos pela pressa de construir o Reino e cientes que não seremos livres enquanto outros permanecerem escravos de corpo ou de alma, cantemos Aleluia! É nosso dever e nossa salvação, pois Deus passou e libertou seu povo; passou e ressuscitou seu Cristo dentre os mortos e nada mais poderá separar-nos de seu amor.Uma muito Feliz Páscoa para todos!




* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.